A falta de motoristas profissionais continua avançando no setor de transporte rodoviário. O novo relatório global da IRU (International Road Transport Union) aponta que as dificuldades de recrutamento estão aumentando e já representam a principal preocupação dos operadores em grande parte dos mercados analisados.
Segundo o levantamento, existem cerca de 2,9 milhões de vagas de motoristas de caminhão não preenchidas em 18 mercados avaliados, número equivalente a 11% da força de trabalho. Na Europa, uma das regiões mais impactadas, o déficit chega a aproximadamente 502 mil posições abertas, representando uma taxa de escassez de 13%.

O estudo indica ainda que, em quase todos os mercados pesquisados, a taxa de escassez de 2025 ficou acima da registrada como referência em 2021. Dessa forma, o problema deixou de estar relacionado apenas aos ciclos econômicos de curto prazo e passou a envolver fatores estruturais, como envelhecimento da mão de obra, barreiras para entrada na profissão, infraestrutura insuficiente e mudanças nas expectativas dos trabalhadores.
Envelhecimento da força de trabalho amplia desafio para o transporte rodoviário
De acordo com a IRU, as questões demográficas são um dos principais fatores de pressão na Europa e na Austrália. Cerca de 20% dos motoristas europeus e 24% dos profissionais australianos devem se aposentar nos próximos cinco anos. Na Europa, aproximadamente 660,5 mil motoristas devem deixar a atividade até 2030.
Já em mercados como México e Brasil, o relatório aponta que restrições estruturais de mão de obra e caminhos de formação profissional ainda pouco desenvolvidos mantêm os índices de escassez elevados. Em Uzbequistão e China, por outro lado, a demanda por transporte de cargas cresce em ritmo superior à disponibilidade de motoristas.

Entre os operadores europeus, cerca de dois terços afirmam que já recusaram novos contratos por não encontrarem profissionais suficientes. Além disso, 65% dos operadores da Europa apontam a falta de motoristas como a principal preocupação do negócio, índice quatro vezes superior ao de qualquer outro desafio analisado.
O secretário-geral da IRU, Umberto de Pretto, afirmou: “Apesar dos esforços significativos da indústria, a escassez de motoristas se aprofundou como uma questão estrutural crítica para o setor de transporte rodoviário. O recrutamento de motoristas está afetando diretamente a capacidade de transporte, o crescimento dos negócios e a confiabilidade das cadeias de suprimentos.”
A pressão é especialmente significativa para empresas menores e operações de longa distância. Empresas com menos de 50 funcionários apresentaram índices de escassez seis pontos percentuais superiores aos registrados por grandes companhias. Segundo a IRU, pequenos operadores com menos de dez funcionários representam 98% das empresas de transporte rodoviário de cargas da União Europeia e 79% da força de trabalho do setor, mas possuem menos recursos para investir em recrutamento, treinamento e contratação internacional.
Outro ponto destacado pelo relatório é a baixa participação feminina na profissão. As mulheres representam apenas cerca de 4% dos motoristas de caminhão na Europa, apesar de pesquisas indicarem que elas tendem a ingressar na atividade em idade mais jovem do que os homens.
A IRU também destaca uma mudança nos critérios considerados pelos profissionais ao avaliar oportunidades de trabalho. Embora a remuneração continue sendo um fator relevante, operadores relatam uma chamada “barreira salarial”. Segundo o relatório, apenas aumentar os salários deixou de ser suficiente para atrair e manter motoristas.
Aspectos como condições da cabine e do veículo, disponibilidade de estacionamento seguro, tempo em casa, previsibilidade das escalas e equilíbrio entre vida profissional e pessoal passaram a ter maior peso, especialmente no transporte de longa distância e no turismo rodoviário.

O levantamento qualitativo da IRU foi realizado por meio de entrevistas aprofundadas com associações nacionais e grandes operadores da Austrália, Brasil, Canadá, Europa e Turquia. Os resultados mostram que empresas estão adotando diferentes estratégias, incluindo melhorias no planejamento das jornadas, condições de trabalho, investimentos em treinamento, parcerias de recrutamento e criação de planos de carreira.
No entanto, o relatório aponta que iniciativas individuais das empresas podem não ser suficientes. A entidade destaca exemplos da Finlândia, Holanda e Turquia, onde a cooperação entre operadores, associações e autoridades públicas contribuiu para criar processos mais eficientes de formação e recrutamento.
“IRU está pedindo ações coordenadas dos governos e da indústria. A escassez não pode ser resolvida apenas com campanhas de recrutamento”, afirmou Umberto de Pretto. “O setor precisa melhorar a qualidade do trabalho e tornar a condução profissional uma carreira que as pessoas possam iniciar, desenvolver e permanecer.”
O relatório reúne dados de 18 mercados da Europa, Austrália, Brasil, China, México e Uzbequistão, incluindo também os segmentos de ônibus e transporte rodoviário de passageiros na Alemanha e Espanha. O estudo combina dados de pesquisas com operadores e entrevistas qualitativas para apresentar um panorama global sobre os desafios relacionados à disponibilidade de profissionais.
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Sobre a IRU
A IRU é a organização mundial do transporte rodoviário, atuando para conectar sociedades por meio de mobilidade e logística seguras, eficientes e sustentáveis. A entidade representa mais de 3,5 milhões de empresas que operam serviços de transporte rodoviário e multimodal em diferentes regiões do mundo.
